Por sorte nasci
Num campo de amor
Por sorte cresci
Na casa do lavrador
Herdei por consequência
Um quinhão de esperança
Um arratel de vivência
Um quartilho de confiança
Uma canada de amizade
Tive moios de abraços
Entre almudes de fraternidade
Encontrei rumo para meus passos
Um alqueire me serviu de banco
Nele sentei meu corpo cansado
Nele vai justiça e para ser franco
Por ele em medida fui honrado
Conheci a medida da quarta
E o cantil ao canto da adega
Numa infância desmedida e farta
Numa carrada feita de trasfega
Talegadas de trabalhos
Tantos que dei e que fiz
Nas cartas feitas baralhos
Que fazem ilusões de petiz
Entre montes de esforço
Correram rios de suor
Gargalhadas fizeram alvoroço
Lágrimas silenciaram a dor
Os baraços ataram a vida
Dos molhos feitos de pão
Carregados na força adquirida
Na igualdade que há no coração
Fui da terra o amanhador
Entre balizas a seara marquei
De mãos cheias fui semeador
Há sombra da oliveira me sentei
Admirado contemplei a vida
Que é fruto de muito trabalho
E na sesta da tarde adormecida
Acordei com as manhãs de orvalho
Segui o carreiro das formigas
Brinquei com as joaninhas
Cantei dos pássaros as cantigas
Aprendi as historias das velhinhas
Andei pelos campos das tradições
De mãos dadas com o passado
Decorei versos e aprendi orações
Fui o arco-íris do céu nublado
Soube dos animais muitos segredos
Das tempestades admirei a grandeza
Tive os meus receios e muitos medos
Mas fui um filho amado da natureza
Sei da fonte o sabor refrescante
Sei do lagar e do odor do túnel
Sei do fumeiro a cor radiante
Das delícias que fizeram o farnel
Dos relheiros casa de bons coelhos
Das eiras o crivo que escolhe o grão
Das lagartas dos piolhos e escaravelhos
Da ternura do gato e da fidelidade do cão
Sei das ervas as mezinhas
Sei do sabor do azeite no pão quente
Sei do aconchego das brazinhas
E do chouriço assado em aguardente
Sei o conforto das camisas do milho
E do calor das mantas de trapos
Sei das cabras o seu difícil trilho
E dos perus os seus grandes papos
Soube dos quartos da amiga lua
E dos ventos o tempo calcular
Sei dos vasos das flores da minha rua
E das brincadeiras em noites de luar
Sei das festas anuais da aldeia
Onde todos gostavam de participar
Adormeci embalado pela luz da candeia
Acordei manhã cedo com o galo a cantar
Corri descalço pelos campos de restolho
Livre como os pássaros soube sonhar
Ainda sei de cor o som do velho ferrolho
Que eu abria da porta para as galinhas soltar
Aprendi provérbios de tempos antigos
Deitei-me sereno sobre os feixes de palha
Contei pargas de nozes ,amêndoas e figos
Disse crente a frase <que Deus nos valha>
Mascarei-me na ilusão do Carnaval
Pedi pelas portas o pão de Deus com fé
Fiz o presépio no musgo do Natal
E nos Reis cantei janeiras com agua pé
Fiz o rabisco das oliveiras e das vinhas
Caminhei por montes e vales atrás dos caracóis
Da velha azinheira comi com gosto as azinhas
Tomei banho na ribeira junto com os rouxinóis
Recebi das mãos calejadas os afectos
E tive o colo da saudade das avós
Tive a felicidade de olhos repletos
Do brilho dos rostos que gostam de nós
Cresci com o tamanho da amizade
Alimentei-me nas palavras por inventar
Recebi com coragem a defesa da liberdade
Fiz-me poeta pela voz da poesia popular
Não me perguntem se isto é saudade
Ou apenas o encontro com a recordação
Tudo o que sei é que foi a minha verdade
E desta alegria e deste amor vive o meu coração.
Fernando de Santarém 21/03/2014
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