sexta-feira, 21 de março de 2014

Canto Feliz

Por sorte nasci
Num campo de amor
Por sorte cresci
Na casa do lavrador

Herdei por consequência
Um quinhão de esperança
Um arratel de vivência
Um quartilho de confiança

Uma canada de amizade
Tive moios de abraços
Entre almudes de fraternidade
Encontrei rumo para meus passos

Um alqueire me serviu de banco
Nele sentei meu corpo cansado
Nele vai justiça e para ser franco
Por ele em medida fui honrado

Conheci a medida da quarta
E o cantil ao canto da adega
Numa infância desmedida e farta
Numa carrada feita de trasfega

Talegadas de trabalhos
Tantos que dei e que fiz
Nas cartas feitas baralhos
Que fazem ilusões de petiz

Entre montes de esforço
Correram rios de suor
Gargalhadas fizeram alvoroço
Lágrimas silenciaram a dor

Os baraços ataram a vida
Dos molhos feitos de pão
Carregados na força adquirida
Na igualdade que há no coração

Fui da terra o amanhador
Entre balizas a seara marquei
De mãos cheias fui semeador
Há sombra da oliveira me sentei

Admirado contemplei a vida
Que é fruto de muito trabalho
E na sesta da tarde adormecida
Acordei com as manhãs de orvalho

Segui o carreiro das formigas
Brinquei com as joaninhas
Cantei dos pássaros as cantigas
Aprendi as historias das velhinhas

Andei pelos campos das tradições
De mãos dadas com o passado
Decorei versos e aprendi orações
Fui o arco-íris do céu nublado

Soube dos animais muitos segredos
Das tempestades admirei a grandeza
Tive os meus receios e muitos medos
Mas fui um filho amado da natureza

Sei da fonte o sabor refrescante
Sei do lagar e do odor do túnel
Sei do fumeiro a cor radiante
Das delícias que fizeram o farnel

Dos relheiros casa de bons coelhos
Das eiras o crivo que escolhe o grão
Das lagartas dos piolhos e escaravelhos
Da ternura do gato e da fidelidade do cão

Sei das ervas as mezinhas
Sei do sabor do azeite no pão quente
Sei do aconchego das brazinhas
E do chouriço assado em aguardente

Sei o conforto das camisas do milho
E do calor das mantas de trapos
Sei das cabras o seu difícil trilho
E dos perus os seus grandes papos

Soube dos quartos da amiga lua
E dos ventos o tempo calcular
Sei dos vasos das flores da minha rua
E das brincadeiras em noites de luar

Sei das festas anuais da aldeia
Onde todos gostavam de participar
Adormeci embalado pela luz da candeia
Acordei manhã cedo com o galo a cantar

Corri descalço pelos campos de restolho
Livre como os pássaros soube sonhar
Ainda sei de cor o som do velho ferrolho
Que eu abria da porta para as galinhas soltar

Aprendi provérbios de tempos antigos
Deitei-me sereno sobre os feixes de palha
Contei pargas de nozes ,amêndoas e figos
Disse crente a frase <que Deus nos valha>

Mascarei-me na ilusão do Carnaval
Pedi pelas portas o pão de Deus com fé
Fiz o presépio no musgo do Natal
E nos Reis cantei janeiras com agua pé

Fiz o rabisco das oliveiras e das vinhas
Caminhei por montes e vales atrás dos caracóis
Da velha azinheira comi com gosto as azinhas
Tomei banho na ribeira junto com os rouxinóis

Recebi das mãos calejadas os afectos
E tive o colo da saudade das avós
Tive a felicidade de olhos repletos
Do brilho dos rostos que gostam de nós

Cresci com o tamanho da amizade
Alimentei-me nas palavras por inventar
Recebi com coragem a defesa da liberdade
Fiz-me poeta pela voz da poesia popular

Não me perguntem se isto é saudade
Ou apenas o encontro com a recordação
Tudo o que sei é que foi a minha verdade
E desta alegria e deste amor vive o meu coração.


              Fernando de Santarém 21/03/2014






terça-feira, 18 de março de 2014

Para te agradecer Pai

São breves as minhas imagens
Desse homem que tu foste.
São escassas as suaves memórias
De ver um carinho inesperado.
Muitos anos se passaram afinal
Para que soube-se como defenir
Tudo quanto sou e fui para ti e tu para mim.
Não que seja um só remorso
E tao pouco será ressentimento
Por saber tudo o que não me deste.
Lembro-me pequenino a olhar para ti
Esperando que me desses aquele chapéu de chocolate
Para mim era a maior fortuna
Qual tesouro ou jóia sagrada
Sentava-me no poial da nossa porta de casa
E admirava aquele raro mimo de carinho.
Não lamento o carro de bombeiros
Que tanto desejei e nunca tive
Ou aquele camião amarelinho
Que nunca carregou os meus montes de ilusões.
Porém deste-me o que nunca quis
Fizeste de muitos dos teus exemplos
Algo que me afastou da nossa família
Ensinaste-me o valor do sofrimento
Plantas-te no meu coração a dor
De desespero viste meus olhos de criança chorar
Não por me bater ou maltratar
Mas porque faltas-te com carinho e amor
Àquela mulher que tudo por mim suportou.
Sem saber fizes-te de mim um solitário
Mas encheste-me de um amor único
Sem razões para não acreditar
Que no fundo fizes-te o teu melhor
E se essa mulher que é minha mãe te perdoou
Porque razão haveria eu de não perdoar.
Pelas lágrimas dos meus tristes olhos
Afastei de mim qualquer desejo de ser pai.
A tua morte nesta vida nos separou
Mas se a minha morte acaso nos juntar
Quero que saibas que sou o filho que te amou
E que por maior dor não nega o teu nome
E com orgulho diz com carinho o nome que me dás
E quero dar-te o abraço que em vida não te pedi
E que tu não me foste capaz de dar
A este filho que por sorte soube perceber
Que és o meu pai ,que Deus te guarde em paz.


       Fernando de Santarém 19/03 /2014
              (José Paz)






segunda-feira, 17 de março de 2014

Andorinhas

Ficam pelo chão
As penas das andorinhas
Partem passado o Verão
Para saudades minhas

Partem com rumo certo
Deixam ficar suas casas
Deixam a rua aqui tão perto
Levando vida nova nas asas

Procuram o sol noutra terra
E de lá hão-de voltar a partir
Trazendo até nós a Primavera
E a alegria de as vortar a ouvir

Voando ligeiras sob os beirais
Carregando no bico a esperança
Fazem os seus ninhos intemporais
De barro amassado com confiança

Num entrelaçado de belos ninhos
Cada uma conhace o seu bom lar
Podemos ver os pequenos filhinhos
Felizes à porta para a rua a espreitar

De preto e branco vestidas
Que a natureza assim as criou
São as aves das Primaveras floridas
São o regresso que feliz se desejou

Viajam à milhares de gerações
Por rotas com séculos de história
São lendárias as suas migrações
São prova de resistência e memória

Vêem até a nossa terra e trazem as flores
Vão com o Outono para saudades minhas
Mas hão-de voltar trazendo de novo amores
Elas que eu desejo Primavera e as Andorinhas.


               Fernando de Santarém 17/03/2014