Por entre o meu pensamento de dor e amargura adormeci .Nas minhas costas a vida corria ,fazia frio e a cidade dormia em branda chuva que ensopava a mais dura das pedras da calçada dando-lhe um brilho resplandecente na noite,as luzes dos candeeiros envoltas em suave neblina criam a atmosfera própria para as mais loucas mentes que sonham noites terríveis e até de temível existência que sacrificam as almas dos mortais.
Ainda assim era sem duvida a noite que me trazia algum conforto sabia bem o seu silêncio ,apenas um leve temor me assolava ser vítima dessas mentes que conscientes ou inconscientes quem sabe numa embriagues de perigosos desejos de malvadez me encontrassem como uma cobaia para os seus anseios de saciar de vingança os seus corações que fervem de insatisfação e cheios de raiva e ódios estão prontos a lançar como lava de vulcões as frustrações que acumulam da vida.
Eu vivo na escuridão da noite no lado negro da vida e não sei o caminho para sair deste labirinto onde entrei sem ver o que dizia na entrada, se vida ou morte .
Mas agora uma vez cá dentro terei de caminhar não posso ficar parado ,sentar-me ou acomodar-me,terei que a todo o custo procurar o caminho para essa luz que me devolvera a vida,não vou baixar os braços não vou poupar minhas forças nem minhas pernas e será a vida que corre nas minhas veias que me incitará a procurar e a conquistar o meu lugar no mundo dos vivos digno desta vida que me foi dada sem custo sem preço,única e livre.
Com ainda um raiar leve da aurora já meu descanso se interrompe por uma consciência que não lhe permite o desfrutar em pleno desse prazer natural do ser humano, o sono.
Tenho de levantar-me da minha cama já me basta esta tristeza e amargura quanto mais ainda permitir que o olhar de uma sociedade de consumo individualista e de um egoísmo barato me julgue e condene na sua sobranceria que lhe permite ter prazer na infelicidade e na má sorte que não escolhe hora nem lugar nem vida onde se mostrar em toda a sua plenitude sem avisar qual o corpo e a alma que será exemplo de repulsa de escárnio e de desprezo desta mesma sociedade de tão puros e nobres valores.
Pouco me resta a lamentar ,há quase uma semana que deambulo por esta cidade ,hoje fiquei por terceira noite neste quarto improvisado numa casa aberta ao mundo,um leito de chão coberto de cartão um cobertor que esconde o corpo e o resguarda desde os pés à cabeça e me protege do frio,este gelo que me envolve neste novo despertar.
Quem me dera não viver um novo despertar .
Pudera eu esquecer que já fui homem ,hoje sou uma triste imagem duma realidade que vivo mas não desejo, pelo contrário a minha recusa é tão grande e constante pois se não sou digno de uma vida justa que me vale viver na injustiça.
Levanto-me dobro o cobertor abro a mala que me acompanha com o pouco que me resta ,dela retiro uma toalha ,pego na garrafa de água e pondo alguma na mão passo-a pelo rosto ,mais um pouco e pronto já está lavado ,agora enxugo-me na toalha ,passo a mão pelo cabelo e lanço um olhar breve para a rua.
É cedo e ainda bem ,não se vêem pessoas nem carros apenas os pardais dão sinais de estarem também eles a despertar para um novo dia .
Arrumo apresado o cobertor e a toalha na mala e fecho-a,de uma mochila numa bolsa tiro um pente e ajeito o cabelo pelo reflexo de um vidro baço e sujo de uma porta à muito fechada .
Apanho os cartões e encosto-os a um canto junto da parede ,quem sabe se voltarei a precisar deles mais uma vez,quem sabe!....
Respiro fundo e deixo um desabafo....queira Deus que não!.
FERNANDO DE SANTAREM 7/06/2012
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